quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Liderança eclesiástica: os oficiais ordenados da igreja

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Como se configura a liderança de uma igreja local, segundo a Bíblia? Qual a diferença entre os oficiais e líderes de uma igreja?

A liderança no Novo Testamento era diversificada e, segundo Gene Getz, passou por duas fases de desenvolvimento. A primeira era composta por apóstolos e profetas, como Pedro e Ágabo. A segunda fase demonstrou que a igreja estava melhor organizada e dispunha de dois cargos oficiais, pastores e diáconos. O comum nestas duas fases era a atuação vibrante da igreja por meio do ministério pessoal de cada crente.

Os termos bíblicos para liderança eclesiástica variam, mas se dividem em dois ofícios, o pastoral e o diaconal. Em linhas gerais, discute-se se as palavras bispo, presbítero e pastor eram termos que designavam ofícios diferentes ou termos sinônimos para a mesma função.

Em Fp 1.1, Paulo reconhece a presença de bispos, que literalmente significa supervisores, e diáconos na liderança da igreja. Em outras palavras, pastores ou supervisores e diáconos compõe a liderança ordenada de uma igreja local segundo a Bíblia.

A Bíblia, portanto, testemunha e encoraja a presença de oficiais na dinâmica de uma igreja desde os primeiro séculos. Não reconhece, pois, a partir desta segunda fase observada por Getz, a presença de apóstolos ou profetas como oficiais da igreja; apenas como sendo os dons de plantar igrejas (apostolado) e o de pregar (profecia).

Por isso, os oficiais que a igreja batista reconhece são os pastores e os diáconos. Eles são líderes chamados por Deus e autorizados pela igreja local a exercer sua liderança junto ao povo de Cristo. Tanto pastores quanto diáconos devem exercer suas funções de acordo com qualificações descritas claramente em 1Tm 3.1ss.

Os pastores têm a função de apascentar o rebanho. A imagem do pastor é uma metáfora do Antigo Testamento vinculada ao trabalhador que cuidava de ovelhas e foi aplicada aos líderes da nação de Israel. Chegando ao Novo Testamento, a imagem do pastor foi aplicada aos supervisores das igrejas locais, isto é, aos líderes representativos das primeiras comunidades cristãs.

O pastor é quem cuida do rebanho, devendo priorizar o ministério da palavra (pregação e ensino) e da oração como base para sua influencia entre os demais, segundo At 6.4. Em outras palavras, ele deve ensinar a sã doutrina, refutar as heresias, expor fielmente a Palavra de Deus e dirigir a igreja local com os preceitos bíblicos.

Os pastores devem ser respeitados pela igreja local (1Ts 5.12,13); devem ser obedecidos (Hb 13.17); devem ser honrados e abençoados pela igreja (1Tm 5.17); eles são dignos de credibilidade, a menos que testemunhas confiáveis possam confrontar seus erros em amor (1Tm 5.19).

Quanto aos diáconos, eles também devem estar qualificados para exercer o ofício. O ministério diaconal tem início em Atos 6.1-7, quando a igreja de Jerusalém experimentou crescimento numérico e precisava atender às demandas e necessidades das pessoas, auxiliando os apóstolos. Estevão, o primeiro mártir cristão, e Filipe, que pregou ao etíope, eram diáconos dentre outros apresentados pelo Novo Testamento.

O significado da palavra diácono é literalmente servo. A palavra indica duas verdades. A primeira, significa que qualquer pessoa que serve ao Senhor é um diácono, sendo Jesus o modelo de servo-diaconal (Rm 15.8). Jesus é o modelo e a base para todo e qualquer serviço na igreja.

A segunda verdade, porém, é que a palavra diácono também assume um sentido específico, vinculado àquelas pessoas escolhidas para servirem na igreja local em áreas ministeriais de relevância para toda a igreja. São auxiliares dos pastores na condução e disciplina do povo de Deus.

Para ser diácono é preciso estar dentro das qualificações estipuladas pela Bíblia em At 6.3 e 1Tm 3.8-12.

A diferença básica entre o trabalho dos pastores e dos diáconos é a demanda contextual. O ministério dos pastores é supracultural, ou seja, independente do contexto, a igreja sempre precisará ser pastoreada, ensinada e liderada por homens de Deus. Por outro lado, o ministério dos diáconos deve ser efetivo ao suprir as necessidades de determinado contexto, que variam de um lugar para outro.

As igrejas devem seguir o modelo bíblico para nomear seus oficiais. Em 1Timóteo 3.1-12, Paulo deixa bem claro quais devem ser as credenciais de um pastor e de um diácono. Os pastores e diáconos que seguirem essas orientações bíblicas e permitirem ser moldados por tais valores, certamente terão um ministério frutífero e que honra ao Senhor.

A autoridade que Jesus outorga aos oficiais da sua Igreja é para amar, servir e dirigir o seu povo, sempre sob direção bíblica e intimidade com Deus. Pedro esclarece isso reiterando que a autoridade eclesiástica é para servir e não para escravizar, dominar ou manipular as pessoas (1Pe 5.2,3). Os que assim o fazem podem ser severamente advertidos: “Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto, diz o Senhor” (Jr 23.1).

Os oficiais da igreja local, isto é, os pastores e diáconos devem inspirar pessoas sob seu cuidado e orientação para que se cumpra a profecia de Jr 3.15.


            Finalmente, o ensino sobre os oficiais de uma igreja cristã se aplica em que a salvação deve redundar em santidade e serviço; todos os salvos possuem pelo menos um dom para servir; servir é um privilégio; alguns são chamados para servir como oficiais ordenados da igreja; os oficiais da igreja podem ser pastores ou diáconos; esses ofícios existem para auxiliar a igreja a cumprir sua missão com excelência e alegria.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O verdadeiro Noé

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Felizmente, as pessoas lúcidas sabem bem que o Noé bíblico é diferente do filme. Óbvio. Quem espera achar no filme de Darren Aronofsky e do mente brilhante algum aspecto escriturístico basicamente prova sua ingenuidade. Outra coisa, os cristãos deveriam saber que o mundo, isto é, os não-regenerados, não é/são obrigado/s a adaptar a Bíblia com maestria e eficácia. Isso deve ser tarefa da igreja cristã. Nós é que devemos pregar fielmente a Bíblia. Fidelidade ao texto bíblico, por certo, é o que tem sido difícil de encontrar neste fragilizado meio religioso chamado evangélico no Brasil. O crente brasileiro é muito confuso. Sem identidade própria. Ou pior, a atitude que lhe confere alguma identidade própria é usar a opinião dos outros como se fosse sua. Falta boa teologia na construção do pensamento do cristão tupiniquim, ou seja, mais do que cultura bíblica (conhecer os textos bíblicos). Já não temos boa cultura bíblica, imagine Teologia cristã, canônica e equilibrada (saber o que os textos significam e suas relações entre testamentos). Infelizmente temos de usar de generalizações, mas não são todos os grupos cristãos assim. 


O filme Noé acerta em seus objetivos cinematográficos: primeiro, ao criticar os fundamentalistas de cabeça obsoleta; segundo, ao fazer um contraponto entre fundamentalistas religiosos e humanistas obcecados; terceiro, ao distrair os que dizem conhecer a Bíblia com discussões fúteis que tiram os olhos das coisas verdadeiramente importantes, como o discipulado, o batismo, a vida em comunidade, o ouvir atento seus líderes que zelam por sua alma. O filme acertou em cheio nisso. Verdade é que muitos cristãos estão assumindo para si na vida real o fundamentalismo cego, intolerante e ignorante retratado propositadamente no personagem Noé de Russell Crowe. O cristão convicto e atento que vê/lê nas entrelinhas, vai além da estética/imagética e da pegadinha bíblica aparente: sabe que ser cristão é ser diferente daquele "herói" retratado no filme. O nome técnico para o que a direção do filme faz é “releitura”. Quem analisa as obras de arte (seja música, pinturas, filmes ou exposições) sabe muito bem o que significa “releitura”, e ligeiramente não se engana por elas como se fossem a realidade, especialmente aquelas que tocam aspectos do imaginário de sua fé. Hoje em dia temos releituras feministas da Bíblia e releituras de minorias. Sempre usando o texto a seu bel prazer. O filme critica, com uma releitura ficcional exatamente isso. O fundamentalista religioso é incapaz de modificar sua vida sem Deus, ainda que fale com Deus ou sobre religião. 

Hoje há uma tendência de transformar literatura em filme. Todo mundo sabe disso. Não há melhor exemplo que Crônicas de Nárnia. Estou para conhecer alguém que leu tais livros de C.S. Lewis que não ache que o filme é muito menos do que sua imaginação pôde conceber na leitura. No caso de Noé, o maior escândalo é gente que não leu direito ou nunca leu a Bíblia. Se for crente ou membro de igreja, deveria ter lido. Um filme nunca vai substituir um livro. Especialmente, um livro clássico. Imagine se falarmos, de o livro, a Bíblia. Mel Gibson fez isso: tanto em Paixão de Cristo, quanto em Apocalypto. Colocou-nos num mundo épico a partir de dados literários, históricos e arqueológicos, estimulando nossa imaginação. Todo livro que vai para as telintas passa por uma releitura e uma reconstrução narrativa peculiar.

Certamente há alguns benefícios que filmes bíblicos, épicos/históricos ou de ficção trazem para nós. O benefício da imaginação. Você sabia que o design da arca do filme foi projetado com as medidas originais e com as pesquisas bíblicas/arqueológicas de ponta na atualidade? Você sabia que, segundo o irmão especialista Adauto Lourenço, há a hipótese de que os animais da arca foram levados a dormir durante o período do dilúvio? Você já tinha imaginado isso? E as repartições da arca entre as espécies, para que feras não engolissem pássaros? E o retrato de pássaros que não existem mais, mas na época da arca existiam? Você conseguiu sequer imaginar? (Até porque tais pássaros, como o pássaro Dodô, nem existem mais devido a extinção). Até quando o diabo vai ser o protagonista principal no imaginário cristão? Tem coisas muito importante para se imaginar a partir do texto Sagrado e auxiliar na construção do entendimento/relacionamento do/com Altíssimo. Filme por filme, tenho certeza que muita gente viu o "Todo-Poderoso 2", com Steve Carell e nem ficou polemizando tanto assim quanto a representação deste Noé mais “moderno". Deve ter dado boas risadas e pronto. Por que não causou tanta polêmica? Simplesmente, porque em 2003 quando Evan Almighty foi lançado, as pessoas tinham mais vergonha de se expor ao ridículo e menos tempo de internet. Talvez até soubessem mais a Bíblia. Na verdade, o facebook só foi lançado em 2004. Lógico que não é o facebook a causa do problema.


O que se requer das pessoas chamadas evangélicas é que leiam a Bíblia e estudem-na com profundidade. E que falem quando tiverem convicções. Se não, que não falem. O diretor de Noé não será cobrado por fidelidade bíblica. Os membros das igrejas cristãs sim, esses o serão cobrados por exatidão bíblica. Irmãos saiam de qualquer discussão inútil e infrutífera. Expor um assunto requer-se lógica bíblica e canônica; compromisso com Deus e com a verdade; seriedade exegética no intelecto e temor na alma. É requerido amor da parte do cristão não religioso, mas discípulo de Cristo, ao observar que o meio gospel de hoje é um atoleiro pantanoso, criado pelos seus próprios apóstolos, profetas, patriarcas e semi-deuses. Esses sim, bem poderiam ser retratados como pedras, visto que seus corações já se empederniram de sua própria arrogância. São corações de pedras tão rochosas que nem carecerão de um moinho pendurado ao pescoço para se lançarem do precipício por fazerem tantos pequeninos tropeçarem na fé. 

Alguns apontaram incoerências no filme. Se comparado com a Bíblia, simplesmente, um ateu/agnóstico/panteísta/materialista/deísta/teísta sem qualquer perícia em crítica literária poderia fazê-lo. Assim como alguém que domina os estudos shakeaspereanos e assiste o trágico “Sheakespere apaixonado”. Ou quem leu e releu Hobbit e Senhor dos Anéis e percebeu que tanta coisa que estava nos livros não chegou nem perto nos filmes. Tolkien já achou uma heresia transformarem sua obra do “Novo Hobbit”, como chamava, em três tomos, imagine se ele visse os filmes que fizeram de seu majestoso trabalho? Alguns lembram-se do famoso filme sobre Os 10 mandamentos, de Cecil DeMille (1956). Nem mesmo esse aclamado filme é baseado totalmente na Bíblia. DeMille já tinha inovado em 1949 apresentando Sansão e Dalila, assim como a minissérie The Bible com suas omissões e adaptações. Isso sem falarmos que a própria tradução bíblica do hebraico para o português possuí demandas de incongruências. O cinema não é, nem nunca foi, nem será o lugar para se adquirir profundidade e sabedoria bíblica. 

Incongruência não é um filme de Hollywood (isso significa vislumbre de cifras) fazer um filme supostamente bíblico não ser fiel. Incongruência é alguém que diz ler a Bíblia e se autodenominar apóstolo. Incongruência é alguém dizer que um fenômeno lunar é sinal de volta de Cristo. Afeta pessoas altamente sugestionadas com puro marketing para seu ministério. Incongruência é pregar restituição, quando a Bíblia deixa claro que somos pecadores e não há nada que restituir, uma vez que fomos destituídos da glória de Deus. É muito triste alguém acreditar que Deus tem o dever de restituir qualquer coisa a pecadores rebeldes. No mínimo, um pensamento pequenino, visto que a proposta bíblica, verdadeira e espiritual é que Deus faz novas todas as coisas. O conceito de restituição na Bíblia é para o ser humano realizar, no contexto de perdão/perdoar (dica: leia Arrependimento, de Richard Owen Roberts). Incongruência é ver políticos que se dizem cristãos estarem no meio de corrupção e esquemas eleitorais, alguns usando o púlpito para promover sua ideologia política (sem resultados). Incongruência é na vida real os supostos chefes de comunidades usarem de linguagem religiosa, e simbolicamente persuasiva, mexendo com o ego das pessoas para entreter e entrelaçar o dito povo de Deus aos seus propósitos religiosos. “Você é um Mestre!”, dizem. “Você pode mais!”, afirmam. “Seja um líder de sucesso”, insistem. Linguagem típica dos propagandistas sofistas da época do apóstolo Paulo, especialmente no solo de Corinto. Foi também a linguagem dos profetas da paz, opositores a Jeremias, o profeta verdadeiro do Senhor na época da invasão Babilônica. Resultado: foram destruídos. Ananias morreu fulminantemente, juízo do Senhor. Incongruência é: os mesmos que criticam avidamente qualquer coisa, como um filme, a vida dos outros, etc, são os que fecham suas cabeças para uma espiritualidade sólida, bíblica e bem dirigida pela Palavra seguindo vãs repetições. 

Um dia fui escrever sobre o filme Noé, mas achei desnecessário. Apaguei e nem mais entrei em facebook. Mas hoje escrevi porque causa de mais comentários insossos e para dar uma excelente dica: compre um livro simples, mas poderoso de James Innell Packer chamado O Conhecimento de Deus. Gaste seu tempo lendo este livro e comparando com os textos bíblicos. Releia este livro. Leia e releia a Bíblia. E quando quiser relaxar, vá no cinema espairecer. Faz parte da vida. Alguns preferem Sherlock Holmes como eu. Outro, épicos. Filme é filme. Bíblia, é Bíblia. O que vale é manter a mente lúcida para servir a Deus sem as interferências externas que confundem o verdadeiro evangelho.  

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Evangélicos e Evangelho: parâmetros bíblicos do que é o Evangelho – parte 2

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Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Romanos 1:16.

         Anteriormente, definimos que evangélico é todo aquele que crê, defende, propaga e vive o Evangelho de Jesus. Nem todos aqueles cristãos que não são católicos podem realmente ser considerados evangélicos. A resposta à pergunta o que é o Evangelho se torna imprescindivel para localizarmos os evangélicos de fato e de direito do nosso tempo.
        
         Para conceitualizar Evangelho devemos procurar os parâmetros bíblicos do que é o Evangelho. Em outras palavras, o que e como a Bíblia apresenta o Evangelho de Deus; quais são os parâmetros do Novo Testamento para nos aproximarmos do verdadeiro, único e real Evangelho.
        
         Em primeiro lugar, vamos identificar alguns falsos evangelhos da atualidade. Em segundo lugar, vamos em busca de um referencial bíblico para nos explicar o que é o Evangelho.
        
         Mark Dever em Nove Marcas de uma Igreja Saudável vai contribuir com nossa investigação inicial sobre falsas concepções:
·      Deus quer nos tornar ricos, o evangelho da prosperidade;
·      Deus é amor e todos vão para o céu, o evangelho do universalismo;
·      Devemos viver corretamente, o evangelho da religião moralista;
·      Jesus veio apenas para transformar a sociedade, o evangelho transformacionalista;
·      Jesus veio exclusivamente para salvar os pobres da opressão do sistema, o evangelho da libertação;
·      A igreja vive de revelações do future e palavras de supostos profetas, o evangelho do misticismo e do culto à celebridade;

         O Evangelho de Cristo de uma forma ou de outra pode incluir alguns destes assuntos, não necessariamente em sua forma pura como seus evangelistas afirmam. Porém, é certo que nenhum destes evangelhos citados acima são em sua essencia o mesmo apresentado por Jesus Cristo e seus apóstolos.
        
         Creio que a carta de Paulo a Roma é uma das bases para encontrarmos uma explicação clara do que é o Evangelho. Principalmente os capítulos 1 a 4. Diferente de muitos supostos evangélicos de hoje, em sua carta aos romanos Paulo não queria que eles soubessem mais se ele pregava bem, se vestia-se bem ou se citava versículos de cor. Ele queria que os irmãos de Roma o conhecessem por sua mensagem. Sua mensagem era o Evangelho de Cristo Jesus.

         Paulo começa ensinando que as pessoas são responsáveis diante de Deus. “Portanto, a ira de Deus é revelada do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça, pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou” (Rm 1.18).
        
         Em seguida, ele afirma que o problema central da humanidade chama-se pecado. “[…] e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis. Por isso Deus os entregou à impureza sexual, segundo os desejos pecaminosos dos seus corações, para a degradação dos seus corpos entre si. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador, que é bendito para sempre. Amém” (Rm 1.23).
        
         Paulo argumenta a responsabilidade humana e o problema do pecado originado pelo mau uso da liberdade de Adão e Eva no Éden – consequentemente e potencialmente toda a humanidade com eles – com a finalidade de nos introduzir no que podemos chamar de a boa notícia, literalmente, o Evangelho. A solução para o pecado humano é a morte sacrificial de Jesus Cristo e sua ressurreição corporea ao terceiro dia. Paulo vai fixar como o evento central da história da humanidade a obra redentora de Cristo na cruz e sua ressurreição. Romanos 3.21 é sua base para apresentar a boa notícia para todos nós: “Mas agora se manifestou uma justiça que provém de Deus, independente da lei, da qual testemunham a Lei e os Profetas, justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que crêem. Não há distinção, pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus”.
        
         Finalmente, Paulo vai ensinar seus leitores e todos nós como podemos ser incluídos nesta solução de Deus para o pecado por meio do arrependimento e fé em Cristo. Romanos 3.22 e 4.5 fazem eco com Marcos 1.15: por meio do arrependimento e da fé em Jesus a obra vicária de Cristo é aplicada em nossa vida.
        
         Como podemos saber se tal grupo ou evangelista é realmente evangélico: poderemos identificar no cerne de sua vida e mensagem o Evangelho tal como nos é apresentado na Bíblia. Em outras palavras, toda e qualquer definição do Evangelho de Cristo deve passar nos seguintes critérios, isto é, deve constar tais convicções básicas:
·      Se todos somos criaturas de Deus e, em Adão fizemos mal uso de nossa responsabilidade diante do Criador;
·      Se por causa deste mau uso da liberdade outorgada às criaturas, o pecado foi concebido: o Evangelho emite uma má notícia antes da boa, pois todos pecamos e somos pecadores;
·      Se o centro da boa notícia é a centralidade da cruz e da ressurreição, isto é, Cristo e sua obra redentora e não o ser humano ou os próprios beneficios de uma vida abençoada;
·      Se neste Evangelho todo ser humano pode ser incluído por meio do arrependimento e fé genuínas.

         Que Deus nos ajude a compreender e viver o verdadeiro Evangelho e a responder a razão de nossa esperança a cada dia em nosso ministério. E nos capacite a ensinarmos as gerações seguintes a fazer o mesmo. Que Deus nos ajude a não sermos enganados por doutrinas de demonios nem por falsos evangelistas disfarçados de anjos de luz; mas nos dê a graça e a capacitação para desenvolvermos nossas convicções à luz das Escrituras muito mais que os modismos e tendências das personalidades religiosas que gostamos.
        
         Podemos começar tudo isso seguindo o conselho de Paulo: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anatema” (Gl 1.8).
        
         A Deus toda a glória.


        




Evangélicos e Evangelho: examinando a conjuntura nacional – parte 1

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Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Romanos 1:16.

         Normalmente no Brasil chamamos os cristãos não-católicos de evangélicos. Mas será que todos os grupos cristãos que se definem ou são assim considerados são de fato evangélicos? Para responder essa pergunta, eu fiquei pensando no que pode definir se alguém é ou não evangélico. A resposta que encontrei foi: é evangélico todo aquele que crê, defende e propaga o Evangelho de Jesus Cristo.

         Porém, desta primeira pergunta depreende outra derivada e de igual importância: o que é o Evangelho de Jesus Cristo? Apesar de parecer uma pergunta aparentemente fácil de ser respondida, pelo menos por quem se diz evangélico, você vai encontrar respostas diferentes por cada segmento que se denomina desta forma. É muito provável que o significado de Evangelho para um grupo seja algo totalmente diferente para outro grupo, mesmo que ambos se denominem evangélicos. Em outras palavras, neste universo socialmente chamado de evangélicos, é provável que tenhamos diferentes “evangelhos”.

         A base que deve definir o que é o Evangelho para todo e qualquer cristão é a Bíblia, a Palavra de Deus. Imagino que todos os evangélicos creditem a ela a palavra final de Deus sobre qualquer assunto. Como a Bíblia revela o que é evangelho? Quais os critérios que ela delimita para avaliarmos se essa ou aquela definição de evangelho é correta e segura? Todos os evangélicos realmente seguem o Evangelho de Cristo, de acordo com a Bíblia?

         Minha preocupação com estas questões não é apenas de ordem conceitual, mas também de ordem prática. Os membros de igrejas correm um grande perigo de serem enganados por estes “falsos evangelhos” que se mascaram por trás dos vários evangelhos pregados atualmente. Portanto, se tivermos uma definição correta e parâmetros claros do que é o Evangelho de Cristo segundo a Bíblia Sagrada, podemos nos prevenir de seguir falsos evangelhos e falsos evangelistas.

         É provável que você conheça pessoas que assistem programas de televisão evangélicos, vão a conferências e eventos evangélicos, procuram cds, livros e materiais da linha gospel. Mas, que Evangelho é este que eles estão advogando? Você já pensou nisso? O que eu percebo é que nem sempre os membros de igrejas evangélicas estão preparados para julgar ou discernir se tal evangelista possui uma visão correta, isto é, bíblica, do Evangelho.

         Muitos podem falar baseados na ética cristã (daquilo que é certo e errado): são contra o aborto, contra o mal que aflige as famílias, são altamente moralistas e cobradores de posicionamentos éticamente cristãos, principalmente na atual conjuntura brasileira permeada de caos moral. Mas, será que o eixo teológico norteador da sua cosmovisão, apesar de moralmente advogarem uma ética cristã universal – será que eles são de fato evangélicos? Porque evangélico, evangélico mesmo – não apenas a fatia social cristã não-católica – são aqueles que professam e vivem o Evangelho de Cristo, cujo centro é a morte sacrificial e substitutiva e a ressurreição corporea de Jesus Cristo.

         É obvio que o Evangelho de Cristo deve moldar a ética e a moral dos cristãos. Espera-se que os seguidores de Cristo, a partir de sua conversão, sejam defensores de um padrão de comportamente coerente com a vontade de Deus. Mas isso não significa que uma pessoa que saiba o que é certo ou errado seja realmente convertida e centrada no Evangelho de Cristo.

Muitos de nós precisamos aprender a discernir não apenas se a oratória de um líder evangélico é boa ou se ele é engajado nos problemas sociais: precisamos discernir qual é o eixo-teológico que determina o pensamento e as ações deste ou daquele evangelista, ou seja, devemos conhecer o conteúdo dele. Como? Reconhecendo se ele crê, defende e propaga o verdadeiro Evangelho, num universo de diversos “evangelhos” através do exame profundo e acurado da Bíblia Sagrada.